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The Devil Bath 2024: A desagradavelmente bela desilusão




Como uma mulher negra vivendo em uma sociedade onde o papel da mulher como "pilar de harmonia e equilíbrio no casamento, não importa o que aconteça" ainda é motivo de debate, assistir ao filme "The Devil Bath" ou, em português, "O Banho do Diabo", torna-se mais que uma opção de entretenimento — é quase uma necessidade existencial.


Mas calma, vou explicar exatamente o porquê dessa necessidade um pouco mais adiante. Por ora, vamos focar no que "O Banho do Diabo" oferece ao espectador, que é um misto de choque, questionamento moral, e, claro, um banho de sangue (literal e figurativamente).


Antes mesmo de conhecermos nossos protagonistas, o filme já nos dá um grande spoiler: o final. Uma criança, em contato com um bebê de berço, e momentos depois, essa mesma criança é arremessada de um penhasco pela própria mãe. Sim, isso mesmo que você leu. E antes que você me pergunte: "Mas o que ela estava pensando?", o filme nos convida a fazer o mesmo questionamento. A reação inicial, claro, é de horror. "Que tipo de monstro faria isso?", você pensa. Péssima mãe, desumana? Aguenta firme, caro leitor, que vamos chegar lá.

Depois desse ato impensável, a mulher se aproxima de um portão e simplesmente confessa: "Eu cometi um crime!" Segundos depois, já somos informados da punição para esse crime: a morte. E é então que somos apresentados à verdadeira trama do filme. Conhecemos Agnes, uma jovem cujo passado e idade exata são menos importantes do que sua situação atual. Ela é filha de uma mulher já idosa e irmã de um homem com hábitos... peculiares.


Agnes é prometida a Wolf, um rapaz de outra aldeia. Parece uma típica história de amor no século XVIII, na Áustria: famílias unindo-se, o amor triunfando sobre as diferenças culturais — exceto que o grande ponto em comum entre eles é a religião, que, aqui, é mais um personagem central do que um pano de fundo. O casamento é consumado, e aí que a magia acaba. Wolf leva Agnes para seu "ninho de amor", que mais parece uma caverna de pedra do que uma casa, ao contrário da moradia bem mais aprazível de sua própria família.


Mas o que fazer? Agnes aceita. Até porque, ela não tem muitas opções. Além disso, ela tem seus próprios hobbies, como colecionar insetos mortos e guardar um dedo humano como amuleto — um presente bizarro de seu irmão, provavelmente para fertilidade ou felicidade. Nada mais medieval do que um dedinho humano para dar sorte, certo?


Na noite de núpcias, o conto de fadas desmorona. Wolf, embriagado, ignora qualquer tentativa de intimidade e se masturba enquanto Agnes assiste, constrangida. Para piorar, ela é obrigada a dormir em cima dos resquícios dessa "primeira noite". Agnes, sempre esperançosa, tenta novamente na noite seguinte, mas é novamente ignorada. Como se não bastasse, a sogra dela — vou chamá-la carinhosamente de "a mãe galinha invasiva" — simplesmente se recusa a sair de sua casa e tenta transformar Agnes em uma miniatura de si mesma.


Em uma manhã, após uma série de humilhações, Agnes conhece uma jovem grávida durante uma lavagem de roupa. A moça, aparentemente desprezada por todos na aldeia, desperta a simpatia de Agnes, e elas vão explorar a floresta juntas. Este é um dos poucos momentos de beleza pura no filme: a paisagem é deslumbrante, verdejante, quase uma pintura em movimento, o que torna ainda mais cruel o destino de Agnes.


Mas logo a realidade dura volta a bater à porta. Ao retornar para casa, Agnes ouve a sogra questionando o casamento: "Por que você se casou com essa garota? Por que não escolher alguém daqui?" Agoniada, Agnes foge para a casa de sua mãe, mas, incapaz de entrar, acaba dormindo no estábulo, onde é encontrada por seu irmão. A situação rapidamente se deteriora. Wolf, como o lobo que é, arrasta Agnes de volta para casa, onde ela afunda em uma depressão profunda.


Convencida de que a única saída é o suicídio, Agnes começa a consumir veneno de rato. Quando sente que o fim está próximo, ela pede que Wolf chame um padre. Mas o marido, sendo o "cavalheiro" que é, volta de mãos abanando. Após confessar a tentativa de suicídio, ele faz uma tentativa atrapalhada de salvar sua esposa. No dia seguinte, ele e sua mãe vestem Agnes e a levam de volta para sua família, em uma última tentativa de... bem, nem sei mais o que pensar.


No dia seguinte, Agnes decide acabar com tudo de vez. Ela toma um banho, despede-se da família e segue para a floresta. Lá, encontra um garoto e pede que ele a leve até um santuário. Ele concorda, em troca de pagamento. Chegando ao local, um gesto desesperado acontece: Agnes o mata, talvez para salvar a si mesma de algo pior.


Ela se entrega, e desta vez, somos testemunhas do ritual completo da condenação. Seu cabelo é cortado, suas roupas são trocadas, e ela é finalmente levada à praça pública para ser decapitada. E quem está lá, chorando por sua Agnes? Wolf, claro, mas desta vez em um contexto completamente oposto.


No fim, o que aprendemos com "O Banho do Diabo"? Primeiro, a mórbida fascinação da comunidade com pedaços humanos (aquele dedo decepado faz muito mais sentido agora, não é?). Segundo, e mais importante, é um retrato brutal sobre a dependência cega da religião e suas consequências devastadoras para as mulheres.


"O Banho do Diabo" é um filme emocionalmente devastador e visualmente impressionante, mas sua abordagem fetichista e a exploração mórbida dos gostos de Agnes e da população que a rodeia acabam ofuscando o verdadeiro horror de sua situação. É um lembrete sombrio das muitas formas de aprisionamento que a sociedade, a religião e, sim, o casamento podem representar para uma mulher. É um filme que nos obriga a enfrentar essas questões, ainda que o faça com uma dose desconcertante de brutalidade e obsessão.


A este filme eu dou uma nota de 6/10.



 
 
 

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